sexta-feira, 4 de junho de 2021

Lógica Submersa

 



Alice aprendia sobre os ensinamentos do mestre Tartarruga aos habitantes marinhos:

"Lentura e Estrita, é claro, para começar", respondeu a Tartaruga Falsa; "e depois os diferentes ramos da Aritimética: Ambição, Subversão, Desembelezação e Distração."
[...]
"Bem, tinhamos Histeria", respondeu a Tartaruga Falsa, contando as matérias nas patas, "Histeria antiga e moderna, com Marografia; depois Desdém..


A analogia com matérias que substituíram Leitura, Escrita, Adição, Subtração, Multiplicação, Divisão, História, Geografia e Desenho, vem da necessidade de uma lógica própria de um mundo paralelo, subterrâneo e marítimo. Isso se assemelha com a comparação que a psicologia arquetípica traça no "Sonho e o Mundo das Trevas" com relação ao mundo inconsciente. Não é possível entender sua lógica apenas trazendo seus elementos para uma leitura consciente, se não foi formulada a partir de pressupostos conscientes. Para entendê-lo, devemos respeitar sua autonomia e nos aproximarmos de seu funcionamento.

No conto, as matérias aprendidas parecem estranhas em um primeiro momento, pois enaltecem valores geralmente desvalorizados. Mas a psicoterapia é um espaço de reconhecimento de todas as manifestações psíquicas como de igual valor à psique. De subversão, a criação de um espaço imerso abaixo do verso, entrelinhas, da lógica consciente. De lentificação do ritmo desenfreado para percebermos, sentirmos, nos orientarmos sobre para onde e de que forma estamos guiando nossa vida. De histerias enquanto manifestações da anima que habita o útero psíquico. De desembelezar e tirar toda a maquiagem que oculta toda nossa pele psíquica em uma tentativa de esconder fissuras, falhas e rugas. De "patologizar", reconhecer o hiato frente ao ideal consciente e coletivo, sendo manifestação autônoma da nossa individualidade. De criação de imagens psíquicas.