quarta-feira, 7 de abril de 2021

Moral da história



Como venho lendo a história de Alice de Lewis Carroll, que por sinal gosto muito, vou fazer uma sequência de alguns trechos que podem ser pensados no contexto clínico.

"Você está pensando em alguma coisa, minha cara, e isso a faz esquecer de falar. Neste instante não posso lhe dizer qual é a moral disso, mas vou me lembrar daqui a pouquinho."
"Talvez não tenha nenhuma", Alice atreveu-se a observar.
"Ora, vamos, criança!" disse a Duquesa. "Tudo tem uma moral, é questão de saber encontrá-la." [...] é o amor que faz o mundo girar'."
"Alguém disse", Alice murmurou, "que ele gira quando cada um trata do que é da sua conta."
[...] "e a moral disto é... 'Cuide do sentido, que os sons cuidarão de si'."
"Como gosta de achar moral nas coisas!" Alice pensou consigo mesma.

A fala constante, que não cessa nem para a reflexão, é cheia de moralismos. A "moral da história", aquilo que algo significa e nos ensina, é sempre uma leitura a partir de um ponto de vista moral, nos indica um ensinamento do que é certo ou errado a partir daquilo que estamos valorizando ou desvalorizando.

O sentido das coisas, dos pensamentos, dos sonhos, quando trazidos à clínica psicológica, vem muitas vezes com a expectativa da busca por um significado que traduza o fato psíquico à outro algo qualquer, como se sempre houvesse um significado de maior valor oculto atrás do fato em si.

E de fato, podemos fazer diversas leituras que tragam sentido X ou Y, mas são sempre perspectivas parciais a partir do leitor ou analista em questão. Esse significado não é mais real que o fato em si, mas desde que não tente reduzir o fenômeno, cria uma nova forma de nos relacionarmos com a imagem, e por isso, não substitui a imagem original, apenas a valoriza.

O respeito ao silêncio por parte do terapeuta é um respeito pela possibilidade de reflexão, bem como pela profundidade da psique, que vai além de qualquer literalismo interpretativo. Suportar o silêncio é deixar que a imagem psíquica fale por si, se explicando ou existindo enquanto experiência, sem qualquer teorização que force a caber no limitado conhecimento do analista.