quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Relato de experiência pessoal: abstinência de álcool

   Este texto é um relato de uma experiência pessoal. Estamos em Dezembro, e estou completando um ano desde que resolvi experimentar a abstinência do álcool e de refrigerante. Sei que minha experiência pessoal não pode ser generalizada, mas acredito que contar como está sendo esta vivência poderá ajudar algumas pessoas, sejam elas dependentes do álcool interessados em parar de beber, assim como pessoas com consumo moderado, que possam refletir sobre seu consumo.

   Inicialmente, destaco minha história pregressa com o álcool. Meu uso no ano passado era moderado, consistia em aproximadamente cinco vezes por mês, e por isso, não apresentava sinais de dependência, assim como geralmente não causava aparentes prejuízos, não caracterizando consumo de abuso. O consumo eventual de álcool vinha de cerca de dez anos, o que me colocava em uma situação de acostumar-se com o ato de beber, tratando-o como comum.

   Não houve um grande fator determinante para minha decisão, mas sim, alguns fatores que influenciavam. Entre eles:
-Trabalhar auxiliando dependentes a diminuir ou cessar o consumo. Muito embora meu consumo já fosse moderado, o que me coloca em uma vivência desproporcional às dificuldades dos dependentes, acreditei ser vantajoso realizar essa tentativa.
-Buscar qualidade de vida, tanto para o dia-a-dia, quanto na melhora do desempenho esportivo.
-Financeiramente, consumir álcool é muito mais caro do que opções muito mais saudáveis, e por vezes saborosas.
-Ter liberdade para dirigir.

   Com relação às percepções sociais, imaginei que sofreria uma maior pressão para que bebesse. Foram alguns casos isolados de pessoas que tentaram insistir para meu consumo, ou que fizeram brincadeiras sobre eu ter parado de consumir.
   Acredito que esse respeito se deva também, em parte, à forma em que me mostrei decidido, ao afirmar que "não estou bebendo" ao invés de "não sei", "acho que não", ou "estou tentando evitar".
   Além disso, logo no início, algumas pessoas do meu ciclo de convívio também decidiram parar de consumir, o que me surpreendeu positivamente. Embora nenhum deles tenha se mantido abstinente até o fim do ano, percebi uma real redução de consumo, proveniente de um consumo mais consciente, por parte deles.

   Embora muitas vezes seja recomendado não frequentar lugares onde as pessoas consomem muita bebida para quem está querendo parar, mantive-me frequentando estes ambientes, consumindo suco, água, ou tereré. Isso foi benéfico em meu caso, pois minha vida sem álcool não se tornou menos interessante ou mais tediosa. O álcool não se toronou um sinônimo de diversão, ou de sair com os amigos. Pelo contrário, minha experiência sóbrio mostrou-se mais intensa em relação à sentir-me presente e consciente do que estava acontecendo.

   Outra coisa interessante, foi buscar alternativas de convites. O convite aos amigos de antes, que era "vamos tomar uma cerveja" tornou-se relembrar jogos do colégio, como jogar caçador (queimada) em praças,  ou então subir montanhas, corridas de rua, e até jogos de tabuleiros. Meu interesse por estes demais tipos de atividades, aumentou muito, por serem instrumentos de diversão e socialização, papel esse muitas vezes assumido pela bebida.

   Profissionalmente, percebi que, ao dar pequenos detalhes sobre minha experiência aos clientes, estimulando que eles pensem de que forma isso poderia estar relacionado com a situação ou dificuldade deles, tive uma aceitação e compreensão facilitada.

   É curioso perceber como as pessoas sempre perguntam o motivo de você não beber, mas não se perguntam o motivo delas beberem. Já imaginou, em um bar, perguntar para alguém que você acabou de conhecer, o motivo dela beber? Esta pergunta causa estranheza, pois beber é o padrão comum, como há pouco tempo atrás também era o fumar. A resposta resume-se geralmente à um "porque eu gosto", fator esse indiscutível.

   Sem dúvidas, em nível de saúde também obtive vantagens em capacidade de recuperação pós exercícios, assim como na diminuição do número de resfriados.

   No dia-a-dia, e até mesmo em horários de lazer, pouco senti vontade de beber. Ainda assim, é curioso que, quando surge, a vontade vem pelo ato, mas ao lembrar de como me sentiria sob o efeito, imediatamente a repulsa substituía a vontade. Aparentemente, em nível simbólico e vivencial, consumo e efeitos posteriores não estão associados por mim.
   Percebi também, que o pensar em beber surgia como pensamento automático, e não como desejo, associado à festividades e comemorações. O beber está associado à alegria de comemorar, como se a fonte da alegria fosse o álcool, e que seu consumo fosse desculpabilizado pelos motivos da comemoração, e não que a felicidade está no próprio acontecido que estamos comemorando.

   A proposta inicial não era uma abstinência eterna, e creio que também continuará não sendo. A ideia era de beber conscientemente, em situações especiais, ou no caso de uma bebida que me despertasse curiosidade pelo sabor, mas sempre em doses moderadas. Isso manteve-me abstinente por cerca de seis meses, quando decidi então criar uma meta, de completar este ano. Chegando agora ao fim desta meta, retomo a proposta inicial, sem saber até quando a abstinência durará, mas feliz com os resultados e pela carga de experiência que este não agir automaticamente me proporcionou.

Renan M. Franklin
Psicólogo e Psicoterapeuta em Curitiba