quinta-feira, 11 de junho de 2015

Requiem para um sonho: análise do filme

Assisti ao filme "Requiem para um sonho", por conta de um convite que recebi para discutir sobre ele na FAE Centro Universitário:
Pois bem, após ver o filme, posso dizer que recomendo á todos, especialmente aos que desejam trabalhar nessa área, mas também para todos os que vivem em sociedade. (É possível assistir ao filme clicando aqui).

Trago aqui algumas reflexões que discuti no evento:

Sara:
Sara é uma mulher solitária, que por mais que tenha algumas amigas, não cria fortes vínculos emocionais com elas, como se estivessem juntas apenas por estarem em situações parecidas, esperando o tempo passar.
Ela ainda se encontra presa á identificações do passado: como mãe provedora; como uma mulher admirada pelo marido; com determinada estética. Fica claro que seu "eu ideal" está distanciado do "eu real", o que pode ser uma fonte de angústia. Ficou, neste caso, faltando a elaboração de um luto ás identificações do passado, possibilitando assim um desenvolvimento no processo de individuação, onde ela se veria inserida na sociedade como ela é essencialmente, não apenas em um recorte cronológico. Fica evidente essa relação no passado quando se imagina no programa, e Harry aparece, pois percebemos que não é só a fixação com ela mesma no passado, mas também com a imagem de seu filho que também se encontra novo, como na época de sua formatura.
O filme não deixa claro se ela já foi sorteada, ou se ela foi selecionada para participar do sorteio, mas ela vive o futuro, mesmo que sem data prevista, sem provas de que aquele telefonema realmente era verídico, como algo certo e real.
A personagem já apresenta uma personalidade compulsiva: no tomar café, na alimentação, no assistir televisão. Os flashs da comida simplesmente sumindo de seu prato dão a ideia de que se ingere rapidamente, e praticamente não se da conta de se estar comendo, a comida é jogada para dentro e por isso não satisfaz.
Destaco aqui a questão da neuromodulação alimentar, discutida anteriormente neste blog. A ingestão de comida compulsivamente e rapidamente pode causar alterações cerebrais, criando certa necessidade maior de ingestão.
Outra reflexão que fiz, como hipótese, é se Sara tentou conversar com o vendedor de televisões usadas, para que não comprasse mais a televisão de Harry. Ao que me parece quando ela vai buscar sua televisão, fica implícito uma aceitação daquela situação, como algo funcional para todos. Caso ela tentasse coibir a compra por parte do vendedor, talvez seu filho fosse vender em outro lugar, e ela não tivesse mais sua tão querida televisão.
Destaco também a supervalorização que ela possui de sua história, ao dizer para Harry que é a oportunidade de contar para todos, e que todos iriam se interessar, como algo incomum e super interessante. Essa supervalorização da própria realidade é muito comum em pensamentos tidos como psicóticos.
Poderíamos dizer que possui uma personalidade extrovertida, ou seja, sua energia está voltada para fora, para aparecer para os outros na televisão, para satisfazer uma imagem, para agradar ou não desagradar os outros (como quando tenta se justificar sobre sua aparência e o teto de sua casa).
Aparentemente, satisfaz sua relação conjugal interrompida na relação de seu filho com Marion, tendo isso como uma das coisas mais importantes de se concretizar.

Harry:
Harry, o personagem principal do filme, teve seu contato com o pai interrompida desde cedo. Visto que sua mãe era muito bondosa com ele, e não tendo outra pessoa para realizar o que é chamada Função paterna (que seria a função castradora, que ensina limites, desmistifica a invulnerabilidade do adolescente), o personagem parece não ter limites. Ele rouba sua mãe, invade propriedades, se envolve com uso e tráfico de drogas, e tem fantasias de que é simples roubar a arma de um policial, e poder brincar com ela, sem nenhuma repressão ou consequência.
O incômodo psíquico causado por suas angústias é tão grande, que acaba deixando de lado as dores e prejuízos físicos, que se ganham um foco secundário. A droga acaba também sendo mais importante na tomada de decisões do que os relacionamentos, brigando com sua mãe, e sugerindo que sua namorada se prostitua, mesmo brigando com ela posteriormente por conta disso.
Fica evidente também a sua insatisfação financeira, e a importância que da ao crescimento neste aspecto.

Marion:
A personagem não apresenta durante todo o filme o desejo e prazer em produzir. Falta um desenvolvimento de seu Animus, da capacidade de executar e fazer tudo aquilo que ela já sonha. Por conta disso, parece sempre submissa para ser sustentada: por seus pais; por Harry; através da prostituição.
Ao decorrer do filme, parece que a personagem vai se desligando da realidade. No início, parece aventureira, sonhadora, mas vai se tornando conformada com as situações. Independente disso, a característica de se envolver em atividades de risco nunca se perde, apenas muda sua forma de manifestação.
Apresenta também problemas do sono, possivelmente ligados á abstinência.

Visão geral do filme:
Existe uma ilusão por parte dos personagens mais jovens de que o mundo do crime é fácil, como quando afirmam que "todos querem as drogas" ou quando imaginam roubar a arma do policial.
A música do filme é longa, contínua, dando uma impressão de que ao chegar em determinado ponto, simplesmente se recomeça o processo, como o que ocorre na compulsão do uso de drogas, quando acaba o efeito já se busca dinheiro para comprar mais e utilizar novamente. Não existe um intervalo, um espaço para pensar, um ponto de fuga deste círculo.
Todos os personagens acabam fugindo da realidade para buscar viver um sonho. Poderíamos dizer que ocorre uma dificuldade no processo de citrinitas (amarelecimento alquímico), ou seja, se vive da nigredo á albedo, das crises ao sonhar, fantasiar, mas não consegue-se tornar o sonho real. Por isso, os problemas são sempre impessoais (sendo muitas vezes negados) ou superidentificados (acreditando ocorrer só com sigo, sendo uma vivência única).
O filme também ilustra o prazer imediato causado pelo uso da droga, e que faz com que as pessoas á usem. Mas ao longo do filme, vai se tornando evidente que esse prazer acaba se tornando uma necessidade, e que o uso é para retirar-se um incômodo que não consegue-se lidar, e não apenas como uma fonte de prazer por si só.
Todos os quatro personagens principais se apresentam em posição fetal, em algum momento do filme, sugerindo a necessidade de defesa, sentimentos de vulnerabilidade e desejo de regressão.

Tratamento:
Existe uma escassa fonte de prazer, de atividades físicas, e de variação de círculos sociais. Caso os personagens tivessem maiores diversificações nestes sentidos, suas possibilidades de entrarem nestas situações seriam menores.
Os dependentes são muito bem ilustrados, pois eles não são vilões (não estão naquela situação porque desejam, possuem reais dificuldades para se recuperar, possuem desejos e sonhos reais) nem santos (não são vítimas isentas de responsabilidade sobre seus atos, e precisam aprender a lidar com suas frustrações).
Destaca-se também a possibilidade do terapeuta trabalhar as alucinações, ainda que causadas por substâncias, por serem manifestações metafóricas da própria pessoa, que expõe complexos inconscientes da personalidade.
Minha visão de abordagem terapêutica da dependência química gira em torno de um trabalho de fortalecimento do complexo egóico em equilíbrio com o contato do sujeito com o inconsciente. Para isso, são integradas técnicas cognitivo-comportamentais á técnicas analíticas, sempre apresentando coerência neste processo.
Sobre o tratamento oferecido para Sara, percebemos que a compulsão não está somente nos personagens adictos, mas também nas instituições. Acredito que, embora pudesse levar um longo tempo, o tratamento da paciente ainda era possível quando chegou ao hospital. Tentou-se o contato terapêutico, mas após algumas tentativas, desistiram da paciente, recorrendo á técnicas que não levariam á melhora psíquica da paciente, mas á facilitação de manuseamento dela por parte dos funcionários, para que assim pudessem tentar tratar outros casos que exigissem menos trabalho. O contato dos enfermeiros na alimentação foi descaracterizada de humanização, a paciente era simplesmente um objeto de trabalho.
Nosso mundo moderno, nas relações funcionais que exigem produção em massa, descartam aquilo que exige mais trabalho, que não resolve-se sozinho, sendo assim uma sociedade compulsiva.


Espero que gostem da minha análise, e discutam na página do facebook, para enriquecer a discussão e meu próprio conhecimento sobre o assunto.
Abraços!


Renan M. Franklin
Psicólogo e Psicoterapeuta em Curitiba