segunda-feira, 9 de março de 2015

"Os filhos do Crack" - Revista Veja


Primeiramente, inicio esta postagem desejando um feliz 2015 para todos, e agradecendo ao grande número de novos seguidores que venho recebendo diariamente na página do facebook, que mesmo neste período sem atualizações (por conta de uma viagem que realizei), vem crescendo além das minhas expectativas. Também tenho recebido mensagens, principalmente de profissionais que possuem interesse no tema, desejando dialogar sobre o assunto, e que me motivam á evoluir o projeto do blog.

Esta postagem faz referência à reportagem recentemente publicada na revista Veja, do dia 25 de Fevereiro de 2015, com o título "Os filhos do crack". Gostaria de parabenizar os autores do texto pois, ainda que tenham escrito um texto para uma revista de divulgação popular, tomaram o cuidado de buscar dados de referências científicas das mais respeitadas. O texto trata de um caso de uso de crack, acompanhado por pouco mais de cinco meses de perto, onde a usuária deu a luz á uma filha durante este período.


O texto traz dados importantes (como 2,5 milhões de usuários de crack no Brasil), que não faz sentido serem meramente copiados sem uma maior reflexão. Busco então, discutir os efeitos de uma reportagem como esta. Ficou explícito que o objetivo da matéria é expor o drama que os usuários de crack sofrem, e algumas dificuldades que enfrentam na busca da abstinência. A desconstrução familiar e individual produzida pelo uso de crack é ilustrada e se torna evidente quado se afirma que "Oito em cada dez crianças abandonadas são filhas de dependentes químicos" e que "Quatro em cada dez dependentes de crack têm endereço fixo".
 De fato, o uso desta substância leva á conflitos familiares que podem gerar o abandono, o descaso, e intrigas. Porém um cuidado que devemos ter, é para não estigmatizarmos o usuário de crack como aqueles que são, ou, "Não são, ainda, parte daquela multidão de andarilhos que vemos nas ruas, pele e osso, maltrapilhos, com o olhar petrificado" conforme descrito no texto, como se caso ainda não forem assim, serão (digo isso pelo uso do termo "ainda")
 Devemos lembrar que apesar dos danos inegáveis da droga á inserção social saudável do usuário, nem sempre o usuário de crack irá para estas condições, e que embora seis em cada dez usuários não possuam residência fixa, quatro ainda possuem.
 Este adendo serve como alerta, pois devemos gerar políticas e medidas aos "olhares petrificados" das ruas, sim, mas também aos usuários que tem sua petrificação ocular ocorrendo dentro de seus lares, o que não significa que tragam em si e aos próximos menor sofrimento. Algo positivo que o texto trouxe, é a visão de que por trás deste olhar petrificado, ainda existe uma mãe, uma filha, que sofre com seu vício, e que muitas vezes aquele que não utiliza a droga não consegue enxergar.

 Embora a jovem descrita no texto ainda estar em internamento para sua reabilitação, o autor destacou citando Ronaldo Laranjeira, uma dos maiores pesquisadores do país sobre o tema, de que "É possível vencer o crack, mas não sem tratamento", tirando um pouco do estigma que vejo muitas vezes ser divulgado pela mídia, de que o uso de crack é algo irreversível, até mesmo após unica dose. Não se cria o vício pelo crack desde a primeira utilização, como é dito em alguns lugares, mas de fato o potencial de se estabelecer um vício pelo Crack é maior do que da grande parte das drogas encontradas no Brasil.

 Deixo ainda um comentário sobre o enfoque dado no tratamento médico psiquiátrico, que de fato é essencial no tratamento do dependente, porém vêm ficado cada vez mais evidente, tendo como marco a reforma psiquiátrica, a importância do trabalho multiprofissional em um "tratamento", e não em um "tratamento psiquiátrico" para o vício de drogas.


Renan M. Franklin
Psicólogo e Psicoterapeuta em Curitiba