domingo, 21 de setembro de 2014

O abuso de álcool no Brasil e a incoerência argumentativa da liberação da bebida alcoólica para o consumo

Segundo o Proad-Unifesp, além dos prejuízos no cérebro, na capacidade de memorizar, aprender, e controlar os impulsos, o ato de provar álcool antes dos 12 anos de idade pode elevar em 60% riscos de abuso de álcool na adolescência.
Fonte: Proad

Percebemos que além de "acostumar" o cérebro do jovem com o ato de beber, não é apenas uma questão neurológica, pois para que haja esse consumo precoce, o jovem pode já estar inserido em um ambiente onde a cultura é de que "beber não é um problema",  como por exemplo onde os pais tomam vinho diariamente, cerveja nos finais de semana, e incentivam o jovem a experimentar o colarinho da cerveja. Neste ambiente, o jovem pode crescer acreditando que beber é um hábito comum, e que por isso, não é preciso se preocupar.

Ainda assim, embora o consumo de álcool no Brasil tenha diminuído, sendo em média 8,7litros de álcool puro por ano, é muito superior aos 6,2litros da média mudial.

Fonte: OMS


Embora essa quantidade seja aparentemente pequena, devemos considerar que é de etanol puro. Tendo em consideração que na cerveja comum temos aproximadamente 4% de seu conteúdo sendo etanol, e que algumas pessoas não bebem, ou bebem menos do que a média nacional, temos números que preocupam em relação ao quanto algumas pessoas ingerem de bebida, e os prejuízos que isso podem trazer. Pensando o Brasil como um país com mais de 200 milhões de abitantes, como é atualmente (2014), a quantidade de pessoas com problemas derivados do álcool se torna ainda maior.

Algumas pessoas questionam o real prejuízo do álcool, argumentando que se fosse prejudicial, não seria liberado. Primeiramente, devemos ressaltar que a venda e consumo do álcool não é liberada, mas sim controlada (populações acima de 18 anos, que não conduzam veículos ou máquinas operacionais em seguida) exatamente por existirem riscos, que não estão compreendidos apenas nas ocasiões proibidas, mas principalmente nelas.
Outra questão que devemos considerar é a cultura da bebida relacionada com o lazer, digo isso pois o álcool para ingestão já foi incluído como substância ilícita em alguns países, com base em prejuízos á saúde, mas principalmente na queda de produtividade, porém de forma frustrada, pois a população não estava preparada para extravasar sem a ingestão de álcool, tomando essa proibição como um veto interpretativo ao direito de se divertir.
A terceira questão que não pode ficar de fora, mesmo em uma discussão não muito aprofundada, é a influência econômica da industria de bebidas. Algumas empresas produtoras de álcool financiam grandes empresas, como através de propagandas, como emissoras de televisão, marcas ligadas ao esporte, entre outros diversos setores. Estas empresas acabam em alguns casos estando vinculadas com decisões legislativas através de interesses diretos ao financeiro do país (através de benefícios mútuos entre Estado-empresas), ou indiretos (através de benefícios mútuos entre governantes-empresas). Por conta desta integração profunda das empresas produtoras de bebidas alcoólicas no cenário econômico nacional, as regras são estruturadas de forma que não prejudique os beneficiados, tendo esta forma de funcionamento como princípio mais relevante que outras questões que atingem a população de maneira geral.
Para ilustrar a potência econômica deste seguimento, destaco uma nota publicada pelo PROAD, onde afirma que a empresa cervejeira corresponde à 2% do PIB nacional, tendo faturado 70 bilhões de reais em 2013.
A quarta questão para destacarmos é a individualidade de cada indivíduo em sua relação com o álcool, Embora haja uma grande taxa de pessoas com problemas derivados do consumo abusivo de álcool, temos que levar em consideração que a maioria das pessoas que consome álcool não desenvolve condutas de abuso ou dependência, e que a legislação é unica, optando assim por buscar preservar o direito dos que não sofrem maiores problemas, ainda que algumas pessoas desencadeiem sérios problemas com isso. Isso não quer dizer que o fato de que, mesmo sem o abuso ou dependência, o álcool não cause prejuízos, porém estes ocorrem de forma moderada.
Coloco como comentário aqui, também o fato de que pessoas utilizam substâncias ilícitas, ainda que legalmente não possam, assim como existe o contrabando de cigarros e bebidas alcoólicas, ainda que estas tenham seu consumo e porte autorizados para a maior parte da população. Isso significa que a proibição ou não de uma substância, não altera o fato de causar prejuízos ou não, e nem sequer é a maneira mais adequada para se deixar claro que não é saudável.

Se você conhece alguém com problemas com álcool, aconselhe que procure um profissional indicado para iniciar seu tratamento. Promova também a prevenção aos problemas de abuso, evitando que jovens tenham contato precoce com o álcool.

Até logo!


Renan M. Franklin
Psicólogo e Psicoterapeuta em Curitiba